Há percursos artísticos que não se organizam por categorias, mas por inquietações. Rita Ravasco é um desses casos. Pintura, ilustração, vídeo, desenho, escultura e intervenção urbana não surgem como linguagens separadas, mas como campos de expressão contínua e um olhar atento sobre o mundo.
E é com grande satisfação que o Estúdio Letras inaugura a primeira edição do ENTRE/VISTA de 2026 com a artista, num momento que nos parece particularmente simbólico. Não apenas pelo amadurecimento do seu percurso, mas pela forma como a sua obra dialoga com questões centrais do nosso tempo: consciência ambiental, emoção, memória coletiva, identidade e responsabilidade ética da criação artística.
Rita Ravasco constrói uma prática que recusa respostas simples. O seu trabalho convoca o observador para um território de tensão produtiva, onde o belo convive com o incómodo, onde a cor viva coexiste com temas densos, e onde a experiência íntima se transforma em linguagem universal. A sua obra não pretende explicar o mundo, mas criar reflexões sobre ele.
Em conversa conduzida pela jornalista Luísa Reiff, sócio-fundadora do Estúdio Letras, falamos sobre transdisciplinaridade, natureza, emoção, ativismo, tecnologia e futuro. As perguntas foram pensadas para permitir um mergulho real no pensamento da artista, e as resposta confirmam a complexidade e a coerência de uma prática artística que se constrói a partir do detalhe, da observação e do risco. Acompanhar a sua produção é acompanhar um pensamento em movimento.
A seguir, a entrevista completa, sem cortes, sem edições e sem adaptações, respeitando integralmente as palavras da artista.
Estúdio Letras: A tua trajetória atravessa pintura, ilustração, vídeo, desenho, escultura e intervenção urbana. De que forma essa transdisciplinaridade molda a tua identidade artística, e como decides qual linguagem melhor traduz cada ideia?
Rita Ravasco: Penso que, primariamente, respondo a inquietações internas, buscas de algo que desconheço. Neste sentido, procuro resposta a este inquieto desconhecido, através do contacto direto, de carácter exploratório e experimental, de várias linguagens plásticas e das suas próprias reinvenções.
É como um trabalho de terreno, sem limites na sua extensão de possibilidades, alimentando a minha curiosidade em cada cruzar. Posso assumir que o que molda a minha identidade artística é a curiosidade e que a linguagem funciona como portal de comunicação que se define na sua própria necessidade ou resposta ao problema. A linguagem é resposta, mas também a procura.

Técnica mista, acrílico, linha e marcador sólido sobre tela invertida.
200x140cm
O teu trabalho recorre frequentemente a elementos naturais, especialmente animais, para abordar temas sociais e ambientais. Que papel atribuis à arte na construção de consciência ecológica e emocional?
Rita Ravasco: No meu processo criativo, procuro recorrer a elementos visuais, como o uso de animais, elementos naturais e objetos, criando narrativas visuais vestidas de enigma, que alertem ou implantem vírus de questionamento, na tentativa de contribuir assim para uma consciência ambiental, animal, ética e emocional.
A arte é observada de diferentes prismas, a mesma peça de arte pode ser recebida nas nossas mentes por infinitos labirintos de leitura individual, equacionados com os nossos arquivos de memória coletiva. Sinto que, ao longo do meu processo, tenho sido confrontada com diversas possibilidades de observação e receção sobre a mesma peça. Por vezes, a “mensagem” recebida é interpretada saindo fora da sua primeira intenção, podendo criar alguma frustração, ou pode atingir o oposto, abrindo um novo portal de entendimento.
Gosto desta possibilidade de leitura aberta. Acredito que existe uma responsabilidade na produção artística, que tenha como cuidado a procura de mudança nos paradigmas atuais, que suscitem questionamento individual, para que se construam movimentos coletivos.
Na exposição CONTRASTE, mencionaste que o conjunto de trabalhos nasceu de um período pessoal particular, de transformação e interioridade. Como é que vivências íntimas se convertem em estética (em cor, composição e gesto)?
Rita Ravasco: A exposição CONTRASTE, que teve espaço existencial na Apaixonarte, abriu um novo campo exploratório, em duplo sentido, a nível estético e conceptual, as emoções. É certo, que o ponto de partida aqui foi o meu motor emocional, vindo de um espaço íntimo e que a palavra íntimo, acarretou muitas dúvidas no seu avançar. No entanto, o campo emocional não fala de mim, nem de ti em particular, fala do que é comum a todos, a nossa linguagem mais primitiva e mais crua, o que nos sustenta a existência, nos permite saber que temos frio, fome, dor, alegria ou gratidão…
As nossas estruturas organizacionais, racionalmente criadas são fruto das nossas necessidades emocionais, são respostas, criações como órgãos de justiça são respostas para evitar a dor. Então, porque não trabalhar uma das matérias-primas que mais fascina-me, sendo também a sua valorização, um assunto de urgência social.
Tratar de emoções é normalizar e ampliar espaços seguros, de falhas e vitórias, riso e dor… Como que um normalizar e aceitar do contraste.
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Descreves o teu estúdio como uma “fábrica” onde diferentes versões de ti produzem trabalhos distintos, mas interligados. Como essa ideia de multiplicidade, ou até fragmentação, se manifesta no teu processo e na leitura que propões sobre identidade, memória e coletividade?
Rita Ravasco: O espaço de produção é como que um laboratório de experiências e pensamentos, é ali que digerimos as nossas saídas para o mundo exterior e as recolhas que dele fazemos, sejam físicas ou virtuais. Na produção artística multiplicamo-nos, fragmentamo-nos em várias competências, pesquisa, produção, entendimento, exploração de materiais, aborrecimentos burocráticos, logísticas, comunicação…
Qualquer uma destas competências são alimento para criação artística, de igual modo, o pedir um café, a interação com o outro, a observação da pedra da calçada ou até do caixote de lixo, nos continua ampliar o leque de possibilidades de criação.
Acho que identidade vem da delicada e atenta recolha do detalhe por observação visual, auditiva e emocional, do mundo mais simples ao mais complexo dos mistérios, por exemplo a complexidade da nossa própria existência. O resultado identitário vem de todas as tuas combinações existenciais.
A “Fábrica” é o tubo de ensaio, onde se colocam todas as recolhas para obtenção de fórmulas que ampliem entendimentos e reduzam barreiras. A memória coletiva, no meu percurso, surge sob a forma de objetos que muitos transportam a sua história individual (a maioria desconheço) e evocam proximidade ao observador, por vezes fazem-nos viajar, numa ebulição nostálgica até à infância.

A arte contemporânea tem sido convocada, cada vez mais, a posicionar-se perante crises socioambientais e tensões políticas. Sentes que a tua obra assume um papel interventivo e ativista?
Rita Ravasco: O meu percurso é conduzido por uma linha temporal, que acompanha as inquietações do período a que pertencemos, com um observar afastado, é possível reconhecer essa voz interventiva e ativista, que sempre esteve presente no meu trabalho, especialmente na abordagem de abismos no que diz respeito à exploração animal, problemas ambientais, fossos entre classes sociais, desigualdade de género, entre outros tantos gritantes abismos de negatividade.
Há muita ruína estrutural que se precisa de redesenhar, muita mentalidade a agitar, no sentido de ampliação social, trabalhar políticas mais inclusivas e repensar e valorizar a educação… São bases frágeis como estas que constroem muros, realidades que moldam vidas, visões e ações. O espaço liberdade, não nos pertence só a nós, seres humanos, dentro do nosso reino, existem outras espécies e além do nosso reino animal, existem outros quatro que transportam vida e compromissos simbióticos.
Ironicamente somos a única espécie consciente do funcionamento do planeta e a única a procurar a sua ruína, de forma cega, celebrada e construída na ilusão de cores vibrantes.
A fusão entre técnicas manuais e arte digital é uma característica marcante no teu percurso. Que desafios e possibilidades tens encontrado nesse diálogo entre o analógico e o digital e como percebes a reação do público a essa convergência?
Rita Ravasco: Sinto que a arte digital teve um papel fulcral no amadurecimento do meu corpo de trabalho, especialmente na velocidade a que me permitiu evoluir na composição de cor e na composição de elementos.
Hoje o digital continua presente, no meu processo criativo mas numa posição de bastidores, facilita reduzir a escala da pintura para encontrar os personagens que a mancha esboça. A pintura digital como linguagem final, fez parte de um período que teve o seu espaço de aceitação no observador, abre e encerra um período que estava a carecer de erro, descontrole e caos, toda a exposição frágil que a pintura digital não me permitia.
Ao olhar para 2026, que temas, inquietações ou investigações acreditas que irão guiar a tua prática? Existe algo (estético ou conceitual) que tens sentido necessidade de explorar com mais profundidade?
Rita Ravasco: A orientação de 2026, vai seguir na direção de exploração do campo emocional, com base na investigação científica da mente, percorrendo várias ramificações, desde neurociência, psicologia, psicanálise, biologia evolutiva e espero ainda cruzar-me com vários ruídos divergentes que irão por certo surgir.
Esta procura surge como resposta ao meu atual campo de exploração, em que me desafio a pintar de forma não programada, inconsciente na sua produção, exposta ao erro e ao caos. Estou contente com os resultados, encontro-lhe voz, a mesma genética interventiva e ativista, a arrogância vibrante das cores irónicas, nas suas formas mais sombrias, narrativas de elementos visuais que transportam o contraste entre a dor e o prazer, o frio e o quente, início e fim… Simbioses e sinapses, estruturas e organismos, micro-organismos…
Recolhas que se alimentam de detalhes, tal como a nossa existência se alimenta das nossas experiências e constrói o nosso mundo subjetivo.
Para conhecer mais do trabalho de Rita Ravasco:



